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O PIEDOSO RESGATE - Túlio Vargas

 

Fuzilados traiçoeiramente na noite de 20 de maio de 1894, na Serra do Mar, por ordem do comando militar após a retomada de Curitiba pelas tropas legais, durante a Revolução Federalista, permaneceram insepultos, cerca de sete dias, os corpos do Barão do Serro Azul, Presciliano Correia, Balbino Carneiro de Mendonça, José Lourenço Schleder, Rodrigo de Matos Guedes e José Joaquim Ferreira de Moura.

Mesmo desafiando a lei marcial e os riscos de uma prisão, Luiz Vitorino Ordine, amigo de Serro Azul, atreveu-se a dar-lhes sepultura no próprio local da tragédia. Mas, urgia trazê-los para Curitiba a fim de consolar as famílias aflitas. Todavia, negaram-se as autoridades do governo a permitir a pretendida transladação.

Inconformados, Ordine, David Carneiro, Pedro Falce e Ermelino de Leão planejaram o resgate clandestino dos cadáveres do Barão e de Presciliano, numa primeira tentativa.
Ordine contratou os serviços de Joaquim Franco, da Colônia Santa Maria, experiente dos sertões do litoral, para abrir uma picada no costado da serra até as imediações do quilômetro 65 da ferrovia, na altura do Cadeado. O pobre velho morreu em plena empreitada, mordido por uma cobra.

Apesar desse imprevisto, a expedição foi organizada. No dia 2 de junho, sete pessoas partiram do Miringuava, a cavalo, em direção à Colônia Santa Maria. O itinerário, em seguida, cumpriu-se a pé pelos ínvios caminhos da serra. No dia 4, a coluna silenciosa acampou às margens do rio Farinha Seca. No dia seguinte, chegou ao alto do Cadeado. Era necessário descer um precipício, para depois subir ao primeiro túnel da estação.

Importava não despertar suspeitas. De cima do túnel, foi possível verificar todo o movimento, ao longo da via férrea. Perto da meia-noite, com toda cautela, procedeu-se ao desenterramento dos corpos, no declive ao lado dos trilhos. O cadáver de Presciliano, corpulento, ganhou nova sepultura, no alto da serra do Cadeado, para posterior remoção. O retorno da expedição deu-se ao amanhecer do dia 6, pelo mesmo percurso, com o corpo do Barão transportado numa rede. No dia 7, depois de marcha forçada, chegou à Roseira, onde estavam os caixões fúnebres. Dias depois, já mais calma a situação contra-revolucionária, Ordine determinou que se levassem os esquifes, à noite, com destino ao cemitério, em Curitiba.
Para ludibriar a vigilância da polícia florianista, os caixões foram depositados numa carroça, sob disfarce, cobertos de capim e aduelas. À distância, atento e lacrimoso, Ordine contemplava aquele estranho ritual de despedida. Sepultado às escondidas Serro Azul, defensor e mártir do seu povo. Ironia da história...

   
     
 

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