Deixando
o preconceito de lado, coloquei-me frente à televisão
para entender o sucesso desse programa tão em voga, que,
se desperta repulsa em alguns, consegue cativar muitos. Entendi,
que a razão para tal sucesso, talvez esteja no voyeurismo,
temperado com o sadomasoquismo e a ilusão do interagir.
Envolvida nessa
trama que faz muito lembrar a obra teatral de Jean-Paul Sartre “Entre
Quatro Paredes”, percebi que similar a obra fictícia,
o anfitrião, inteligência unipresente, conduz os convidados
como fantoches, enredando-os a situações pré-determinadas,
testando as respectivas reações.
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Há,
no entanto, uma diferença fundamental. Os hóspedes
do “Big Brother” não são personagens fictícios.
São jovens ávidos de vida, que para ter e aparecer,
obedecem às determinações impostas, sem questionamentos.
São personalidades interessantes que merecem análise
apurada pelo comportamento paradoxal.
Expõem-se
vinte e quatro horas diárias, gritam a sua modernidade. Trocam
de roupas e acessórios, pintam e repintam os cabelos, mudam
incessantemente a maquiagem em busca da perfeição
estética, no entanto se deixam tatuar, sem refletir que esse
ato é irreversível, que tatuado serão para
sempre, sem direito a arrependimentos.
Mas ali vão
eles seduzidos pelo sonho, pelo luxo da gaiola de ouro e não
percebem que como o cão de Pavlov, estão sujeitos
a condicionamentos impostos a irracionais em laboratório.
A casa é linda! Tal como no cenário de “Entre
Quatro Paredes”, tudo sugere que viverão no paraíso.
Mas aos poucos, o anfitrião oculto vai mostrando os instrumentos
de tortura, vai subjugando seus hóspedes, submetendo-os às
mais bizarras situações.
E ao espectador
o que sobra no final do espetáculo?
Na obra de Sartre,
certamente o espectador sai do teatro refletindo sobre a condição
dos personagens ao tomarem consciência de que estão
no inferno, mas que o tenaz, o enxofre e a grelha são os
outros.
Oxalá
o no final do programa “Big Brother”, os telespectadores
analisem que o grande anfitrião, o dono da mídia,
já não se contenta em alimentar o sadismo através
da ficção. Agora testa, física e emocionalmente,
frente às câmeras, as reações de indivíduos
levando-os aos limites da resistência.
E assim é.
A tela de entretenimento nos fornece todas as noites lições
e incentivos de como, eficientemente, nos tornarmos o tenaz, o enxofre
e a grelha dos outros. Não interessa, no entanto, ao dono
da mídia, nos lembrar, da mais antiga das leis que rege o
Universo. Trata-se da lei da causa e efeito, interpretada no dito
popular como: “Quem com ferro fere, com ferro será
ferido.”.
O final do “Big
Brother” certamente será apoteótico! O mais
esperto, o que melhor souber jogar, sairá com um milhão!
Dinheiro bem ganho após tantas peripécias. Dinheiro
pago por nós. Dinheiro bem gasto se do programa, extrairmos
algumas lições. Se entendermos que o teatro, a televisão
é um espelho. E o que mostra ali, é a nossa imagem
refletida. Assim sendo, somos cúmplices dessa tragicomédia,
por ação ou omissão.
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