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FRANCISCO NEGRÃO
por Teresa Teixeira de Britto

No transcorrer do septuagésimo ano de falecimento de Francisco Negrão vale refletir sobre a importância do pesquisador e seu legado, para a história do Paraná.
Francisco de Paula Dias Negrão nasceu em São João da Graciosa, município paranaense, em 3 de agosto de 1871. Era filho de João de Souza Dias Negrão e Maria Francisca da Luz Negrão, sendo pelo lado materno tetraneto de Balthazar Carrasco dos Reis.
Como Servidor Público Federal, recebeu do segundo presidente republicano, Marechal Floriano Peixoto em 1894, a patente de Capitão Honorário do Exército.
Paralelamente às funções de funcionário público, dedicou-se a investigação histórica. Enquanto Diretor do Arquivo Municipal de Curitiba organizou os documentos para a História do Paraná. São 62 volumes impressos, publicados por esse órgão, com a transcrição das atas da Câmara Municipal, no período de 1668 até 1932. Tendo como notas de rodapé, dados explicativos sobre a cidade, que esclarecem e complemen-tam a documentação.
A “Genealogia Paranaense”, editada pela Imprensa Oficial do Estado, é uma obra composta de 6 volumes, sendo o primeiro volume publicado em 1926, e o último em 1950, 13 anos após a sua morte. Para realizá-la Negrão dedicou 24 anos de sua existência.
Através dessa obra Francisco Negrão evidencia que para se entender a história de maneira global, é necessário não só enfocar os acontecimentos marcantes, mas observar atentamente as histórias individuais e seus bastidores. Deixa claro que atrás dos fatos de relevo, situações aparentemente insignificantes, conduzem a esses grandes acontecimentos.
A obra Genealogia Paranaense, como seu nome já diz, é um estudo das famílias de nosso Estado e sua ancestralidade. No Vol.I, para registrar a história do genearca Balthazar Carrasco dos Reis, apresenta pesquisa não somente sobre a Capitania de São Vicente, como a atuação da família de Balthazar, na fundação da Vila de São Paulo. Pesquisa essa calcada nos registros de batismo e óbitos da Igreja Católica, nos inventários, nos testamentos e nas atas da Câmara Municipal de São Paulo.Trabalho esse realizado em conjunto com Silva Leme, autor da Genealogia Paulista.

No Vol. II – Negrão focaliza o tronco: Rodrigues Seixas.
No Vol. II – focaliza o tronco: Rodrigues França.
No Vol. IV – apresenta estudo sobre os troncos: Gabriel de Lara; Moraes Cordeiro; Mateus Leme, Teixeira de Azevedo; Xavier Pinto; Teixeira Coelho; Pereira Braga e Oliveira Cardoso.
No Vol. V – focaliza os troncos: Correa Bittencourt; Cardoso de Lima; Taques; Oliveira Vianna; Góes de Siqueira; Alves; Marques da Cunha; Azevedo da Silveira.
No Vol. VI – estuda os troncos: Macedo; Laynes; Morocine Borba; Martins Lopes; Brandão de Proença; Simas; Souza Pinto; Rodrigues Vianna; Gonçalves Marques; Silva Pereira; Santos; Nascimento de Farias; Lopes Maravalhas; Pereira; Mendonça; Pereira Branco; Freitas Saldanha; Álvares de Araujo; Soares da Costa; Xavier da Silva; Falcão Bastos; Moreira Rocha; Gonçalves dos Santos; Pletz; Müller; Kalkman e Bley.

Negrão, porém, nos ensina nessa obra, que o nome é apenas um condutor para o estudo. Que é um engano se fixar somente nele como direção única, porque os nomes vão trocando de gerações em gerações. Às vezes até, conforme interesses de ordem econômica, política ou intelectual. Assim sendo a genealogia requer um estudo profundo de costado, ou seja, partindo de seus 4 avós, 8 bisavós, 16 tataravós e assim por diante.
É uma investigação árdua, mas fascinante, pois à medida que nos distanciamos no tempo, nossos ancestrais vão se multiplicando e dessa forma constatamos a infinidade de seres que contribuíram para a nossa existência. Exemplificando, indo a apenas 8 gerações atrás, encontraremos 256 homens e 256 mulheres que nos transmitiram seus genes. Portanto há aproximadamente 400 anos atrás, nossa essência vivia em 512 seres. Constatando essa verdade, Negrão nos mostra, o quanto é superficial e fantasiosa, no estudo da genealogia, a preocupação com a heráldica, que geralmente é baseada na genealogia varonia, ou seja, a que se atem à linhagem paterna, muito utilizada nos séculos anteriores quando o bom senso assegurava ser a maternidade um fato e a paternidade uma hipótese. Sim, porque a paternidade só pode ser comprovada cientificamente pelo exame do DNA que passou a existir na 2ª metade do século 20.

Além dessas duas monumentais obras, Francisco Negrão escreveu: As minas de Ouro de Paranaguá; A viagem de Dom Pedro II através do Paraná; A Conjuntura Separatista de 1921; Memória da Santa Casa de Curitiba; Memórias sobre o Ensino e a Educação do Paraná de 1690 a 1933; O Centenário da Colonização Alemã em Rio Negro; Efemérides Paranaenses; Memória sobre os monumentos artísticos e históricos do Paraná, entre outras. Isso tudo, na época em que a máquina de escrever era mecânica e o corretor extremamente precário.
Muitas informações sobre tão extraordinária personalidade, foram passadas de boca em boca. Contam, que publicado o I Volume da Genealogia Paranaense, Francisco Negrão visitava as famílias abordadas na obra, presenteando-as com um exemplar. Contam ainda, que era grande a sua generosidade, que franqueava a todos os interessados, material de sua pesquisa. Contam também, que seu casarão situada na esquina da Avenida Iguaçu com a Lamenha Lins permanecia de portas abertas para receber os amigos, e que, a luz de seu escritório perdurava acesa madrugada adentro, indício de que ele ali estava trabalhando. Por tanto esforço despendido, perdeu quase que totalmente a visão.

Sobre seu trabalho, Rocha Pombo escreveu-lhe em 1925, uma carta do Rio de Janeiro, donde se destaca o seguinte trecho: “Que excelente serviço vai o senhor prestando aos que tiverem que escrever a nossa história amanhã! Queira aceitar as minhas felicitações pela obra que está fazendo e creia que tem um sincero apreciador no patrício e amigo José Francisco da Rocha Pombo.”

Francisco Negrão foi o primeiro ocupante da cadeira número 10 da Academia Paranaense de Letras, foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e do Centro de Letras do Paraná. Faleceu no dia 11 de setembro de 1937, aos 66 anos de idade.
Essa perda foi bem aquilatada pela sociedade curitibana. O Centro de Letras do Paraná e a Academia Paranaense de Letras designaram uma comissão para organizar as homenagens póstumas. No trigésimo dia de seu falecimento, o jornal “O Estado”, publicou reportagem cobrindo as cerimônias. O chefe do executivo curitibano baixou portaria suspendendo o expediente, para que os funcionários da prefeitura se unissem aos membros das entidades culturais, podendo todos, dessa forma, participar da romaria ao túmulo do historiador.
E naquela 2ª feira, 11 de outubro de 1937, às 10 horas, familiares, amigos e admiradores, partindo da Praça Tiradentes, da escadaria da Catedral, caminharam até o Cemitério Municipal de Curitiba, levando flores e preces a Francisco Negrão. E naquela mesma noite, no salão nobre da Universidade Federal, o Centro de Letras do Paraná e a Academia Paranaense de Letras realizaram sessão pública “in memórian”.

Analisando a obra de Francisco Negrão, constata-se que foi construída sob dois enfoques. De um lado, na sua “Genealogia Paranaense”, pesquisou a formação das famílias que nessa terra se instalaram. Aprofundou-se no estudo do indivíduo observando os genes transitando de gerações a gerações. Do outro lado, em seus demais trabalhos, analisou a trama gerada pela ação desse mesmo indivíduo, legando dessa forma, uma obra completa, genial.
Setenta anos após o seu falecimento, faz-se um inventário das homenagens póstumas que perduram. São poucas, mas significativas:

É patrono da cadeira nº. 14 da Academia de Letras José de Alencar.
Salvador de Moyá realizou um trabalho sobre a Genealogia Paranaense, completando-a com dois índices: o primeiro publicado em 1960, pelo pré-nome e o segundo publicado em 1961, pelo sobrenome.
A “Genealogia Paranaense” foi reeditada em 2005 pela Imprensa Oficial do Estado.
No Círculo de Estudos Bandeirantes há uma sala com o seu nome e ali está preservada a sua biblioteca.

O túmulo de Francisco Negrão continua zelado pelo memorialista Gilberto Pacheco e assim resiste o passar do tempo guardando os restos mortais desse arauto da nossa história.


Observação: Pesquisa apresentada no Centro Paranaense Feminino de Cultura, dentro da programação Segunda no Centro, no dia 19 de maio do corrente ano.

   
   

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