MEU
LIVRO AZUL
Chloris
Casagrande Justen
É
impossível deixar de escrever, quando toda a trama
está delineada.
Ali, à minha frente, continuam os papéis que
devo selecionar, as pastas para catalogar, o projeto para
elaborar, mas o filme que está passando ao fundo,
na CNT, me obriga a voltar ao passado, à minha doce
e ingênua juventude.
Ah! Os filmes de Lana Turner, Tyrone Power, Joan Fontaine,
Joan Crawford, Robert Mitchum, Cark Gable.
Éramos tão simplesmente ingênuos…
A violência era configurada nos murros que o mocinho
dava no bandido, vingando-nos das maldades que a mocinha
sofrera; os finais eram felizes e não havia mortos
e feridos e, quando os havia, eram pranteados e acarinhados.
E havia gentilezas, e as mulheres eram lindas e elegantes,
e os homens demonstravam claramente, nas ações,
o seu caráter, e o amor tinha o poder de regenerar
os maus e dignificar as pessoas.
A caneta na mão que apóia o rosto, relembro
as “matinées” de domingo, onde só
iríamos se acompanhadas de meu pai. Aos meus lábios
vem um sorriso quase carinhoso e em meu coração
desce uma caudalosa onda de ternura.
Como posso organizar meu livro de Contas/ Correntes, se
estou “assistindo” Audrey Hepburn, de sorvete
na mão, fugindo de ser princesa para se enamorar
do plebeu Gregory Peck e, sem saber como, já dançam
Cid Charisse e Fred Astaire, encantados com as meias de
seda, seguidos de “My Fair Lady”, e Errol Flynn
que, de uniforme azul da guerra da Secessão, dança
em um lindo salão de lustres de cristais, declarando
amor a sua amada, que veste um deslumbrante traje de tule
branco, apoiada em seus braços amorosos, levando-nos,
a nós meninas-moças da época, ao sétimo
céu de nossos sonhos. Impossível não
rir da minha obediência às ordens recebidas,
de fechar os olhos para não ver a “imoralidade”
dos beijos de amor, uma novidade que corrompia...
Como os tempos eram outros... O perigo não morava
ao lado, nós vivíamos com a felicidade que
não se comprava, com a sobriedade de Greer Garson
durante os bombardeios de Londres. As desditas de nossos
amigos nos atingiam como se vivêssemos os dramas da
caldeira do diabo, admitindo que devíamos compreender
as vinhas da ira, pois assim caminha a humanidade.
As notas fiscais que comprovam o que gastei e que, por excesso
de atividades, nem tomei a devida consciência, ficam
me pressionando, como se fosse suficiente revê-las
para que o tempo aumente seu espaço para abarcar
todas as minhas responsabilidades.
A maior dificuldade está em eu não poder fugir
da beleza de Kim Novak e da obsessão de James Stewart,
vendo um corpo cair. Aliás, lembrar a figura de Hitchcook
aparecendo em todos os seus filmes, traz-me o som alucinante
do voejar dos pássaros, e não sei porque está
à minha frente Julie Andrews dançando nos
telhados londrinos e resolvendo todos os complexos problemas
de uma nova sociedade. A doçura dos olhos de Olívia
de Haviland contrasta, à minha frente, o azul-violeta
dos olhos de Elizabeth Taylor, e Vivien Leigh naquele lindo
traje feito da cortina de veludo que o vento não
levou... Olhos... olhos grandes, frios e dissimulados da
inimiga Bette Davis e, já agora os olhos lindo de
Merle Oberon, vencendo os preconceitos de uma época
e ensinando que o amor formado em ciúme, pode ser
fria lâmina que fere o homem e desestrutura o artista,
transformando o sonho de amor em amargura.
O livro azul da Conta/Corrente é um algoz que me
atormenta. Talvez que ele seja a ponte que não quero
atravessar e que me liga à realidade do assalto ali
da esquina, dos mortos do avião que explodiu no ar,
do desespero daqueles que nem ao menos alcançaram
altura para decolar, das meninas sem lar aliciadas para
a prostituição, da prisão da gangue
de mulheres que roubava as lojas para vender o produto do
roubo, o que nem ao menos pode lembrar o Errol Flynn, de
Robin Hood, contrariando minha esperança de que a
mulher estaria mais longe do banditismo.
Abandono o cinema das ilusões e das minhas ilusões
e retorno à verdade de um mundo de consumismo, de
violência e incertezas.
Na CNT, Victor e Victória, e a minha gargalhada que
ecoa no silêncio da tarde. Desligo o televisor e triste
e desanimadamente enfrento a dolorosa e crua realidade que,
neste momento é o meu livro azul de Contas Correntes.
OBSERVAÇÃO: A exibição do filme
“Sempre no Meu Coração” que acontecerá
no próximo dia 20 de abril, faz parte do projeto
“Meu Filme Inesquecível”, projeto inspirado
na crônica de Chloris Casagrande Justen “Meu
Livro Azul”, publicada neste site, na página
Literária.
A
exibição de “Sempre no meu coração”,
será precedida por comentários da escritora
Tereza Brito de Lacerda.