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Júlia
Maria da Costa nasceu em Paranaguá, PR, em 1º de julho de
1844. Seu pai, Alexandre José da Costa, também de Paranaguá,
faleceu quando Júlia tinha cinco anos de idade.
A mãe, Maria Machado da Costa, era natural de São Francisco
do Sul, SC, onde um irmão seu, João José Machado
da Costa, era tabelião.
Viúva e filha foram morar com ele, e lá Júlia da
Costa viveu até falecer, em dois de julho de 1911. Publicaremos
aqui, em seqüência, mais sobre a vida de Júlia, com
mais poemas selecionados.
Descobrimos nos seus versos uma segunda tragédia na infância:
uma irmã que morreu criança.
Seguem, na íntegra, dois poemas sobre esses acontecimentos: orfandade,
saída da cidade natal, falecimento da irmã – vale
destacar que para o gosto contemporâneo, são poemas muito
derramados e extensos.
Mas isso traduz perfeitamente a estética romântica da época
de Júlia, e é necessária uma dose de imaginação
e de simpatia poética para saborear esses poemas. Quem sabe um
pequeno vocabulário prévio ajude e incentive os leitores
e leitoras, então, pela ordem em que aparecem possíveis
dificuldades:
Abrolhos: recifes perigosos para a navegação;
Soidão: forma contraída de “solidão”
– é o que se chama de licença poética, para
regularizar a métrica do verso;
Baço: no sentido de adjetivo – embaçado, sem brilho;
Compulsa: do verbo compulsar – examinar;
Balsa: bálsamo;
Cruento: cruel;
Acerbas: amargas;
Osculam: beijam;
Ondinas cerúleas: ondas da cor do céu;
Fímbrias: franjas;
Quimera: monstro imaginário – usado aqui como sinônimo
de sonho delirante. |
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A ÓRFÃ
Ai! Triste de quem é órfã!
De pranto amargo e gelado
O berço regado tem!
Qual branco lírio orvalhado
Ao pé de um ermo sombrio
De abrolhos duros cercado.
Ai! Triste de quem é órfã!
De quem não tem proteção!
Pisada flor sem espinhos,
Mirrada rosa em botão!
Chorando triste seus males
Na verde e negra soidão!
Pávida noite sem luzes,
Sumida estrela de alvor;
Formosa e casta açucena
De fouxo e baço palor,
Tal é a imagem da órfã
Sem achar um protetor!
Implume e fraca avezinha
Do pátrio ninho banida,
Soluça triste na terra
Qual vibração que perdida
Vagueia de serra à serra
De todo mundo esquecida!...
Compulsa a órfã sua lira
E eleva a voz docemente!
Sorriem – deuses do Olimpo,
Sorri a terra dormente!
Porém que é triste seu canto
Chorosa rola o pressente!
E todos dizem: – É pena
Tão linda trova de amor
Em alaúde tão pobre,
Que lhe arrefece o ardor!
Queremos ouro e não rosas
Embora tenham odor!
E a órfã chorosa e triste,
Embora casta e mimosa,
Sem pai, sem berço, sem sorte,
Qual hera branda e viçosa,
Sem ter apoio emurchece
De amor em balsa odorosa!
Ai! Triste de quem é órfã!
De quem não tem proteção!
Pisada flor sem espinhos,
Mirrada rosa em botão!
Chorando triste seus males
Em verde e negra soidão!
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MINHA TERRA
Minha infância, meu sonho dourado,
Astro lindo que além se escondeu,
Por que as asas brandiste num vôo
E sorrindo fugiste pro céu?
A saudade minha alma devora...
Que contigo fugiu-me a esperança!
E com ela um arcanjo mimoso,
Minha irmã, doce e meiga criança...
Eu fui logo (que fado cruento!)
De meu lar tão criança banida!
Ai que dores! Que mágoas acerbas
Desde então me atormentam a vida.
Eu chorei por meu berço mimoso,
Como o pobre proscrito por pão!
E sequer não ouvi neste mundo
Nem um brado de doce afeição.
E hoje ainda da pátria me lembro
Com dorida saudade e pesar;
Quando a noite desdobra seu manto
E é mais brando, mais lindo o luar.
E me lembro, se as auras osculam
As ondinas cerúleas do mar,
Eu nas asas das auras desejo
A meu solo querido voar.
E nas fímbrias do lindo horizonte
Do meu norte quem dera eu voar!
Para ver os anjinhos diletos
De meu puro e saudoso folgar!...
Para ver minha linda casinha,
Que, pequena, deixei a chorar,
Testemunha dos brincos da infãncia
Que jamais haverei de gozar.
Para ver minhas lindas patrícias,
Visões puras dum sonho dourado,
Que sorriem gentis entre as nuvens
De meu vago e tristonho passado...
Mas é tudo pra mim impossível!
Tudo é sonho! Quimera!! Ilusão!!!
Só real a saudade que sinto
Nesta negra e cruel solidão. |