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CAPITU & MADAME BOVARY
   
por Teresa Teixeira de Britto
 

Não tem esta análise, a pretensão de dissecar a alma masculina. Tão pouco se atreve a fazer juízos apurados. É apenas uma superficial sondagem, buscando entender o que levaram dois gênios da literatura universal criar, no século XIX, Capitu e Madame Bovary, marcantes personagens, cujo comportamento continua gerando polêmicas.

Observando-se que Capitu, personagem de Machado de Assis (1839-1908), continua, no centenário da morte de seu criador, sendo objeto de discussão, a ponto de ser levada a julgamento, não só nos bancos acadêmicos, como também em entidades culturais, faz-se uma ligação com Madame Bovary de Gustave Flaubert (1821-1880) que levou o seu criador aos tribunais de Paris, acusado de imoralidade. Flaubert foi absolvido, e conseqüentemente, sua personagem também. A mesma burguesia que o acusou, tornou célebre Madame Bovary.

Mas enfim, o que enfim existe em comum entre Gustave Flaubert e Machado de Assis?
Flaubert era filho de médico, nasceu em Ruão, Normandia, França. Aluno mediano do Colégio Real, nunca se destacou entre os brilhantes colegas, aos olhos dos renomados professores. Introspectivo, pouco interagia com a classe. A competitividade o aborrecia. Dedicava seu tempo à leitura de romances que o levavam à muda contemplação. Era detentor de rara beleza física, máscula, o que fazia contraste com a sua sensível personalidade. Bacharelou-se em direito em obediência à vontade paterna. Esse esforço, no entanto, causou-lhe prolongados ataques, diagnosticados como epiléticos. Motivo que o levou a retornar à casa paterna, onde no colo da mãe, Archile Cléopha, recebia o carinho necessário durante as crises agudas da doença.
Alem do extremoso cuidado de sua mãe, Flaubert recebeu na adolescência a simpatia de Elisa Shlsinger. Uma senhora que, juntamente com seu marido, lhe dedicava esmerada atenção, sempre preocupada com o espírito sensível do belo jovem. Por essa senhora Flaubert nutriu amor platônico. Posteriormente conheceu a poetisa Loupe Collet com quem vivenciou ardente paixão.

Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro. Era filho de um pintor de parede que mesmo alforriado, conservava na alma as cicatrizes da escravidão. Sua mãe açoriana, para auxiliar no sustento da casa, tornou-se lavadeira. O pequeno mulato ficou órfão ainda criança, mas a sorte lhe deu uma carinhosa madrasta que o alfabetizou e com muita dificuldade, mesmo depois de viúva, trabalhando como cozinheira, o manteve a seu lado, sempre o incentivando a progredir, a superar a gaguez, cuidando de sua epilepsia e dos complexos gerados pela pobreza que rodeou a sua infância.

O autodidata Machado superou todas as dificuldades. Logo se destacou pelo seu talento. Tornou-se funcionário público. Casou-se aos trinta anos com a portuguesa Carolina Xavier de Novaes. Jovem culta e refinada que o alavancou socialmente. Foi sua companheira fiel, propiciando-lhe um lar tranqüilo cuja atmosfera auxiliou-o no desenvolvimento de sua obra.

Assim sendo, fica evidente que ambos receberam das figuras femininas que o cercaram, dedicação e afeto. Pergunta-se então, onde tiraram a matéria prima para a construção dessas personagens? Sabendo-se que tal questão, é matéria a ser tratada por psicólogos e sociólogos, resta, ao leitor cismativo, aventurar-se pelos caminhos das hipóteses.

Quando perguntaram a Flaubert quem era Madame Bovary, em quem se inspirara para construir essa personagem, ele respondeu: Madame Bovary sou eu. Não é difícil entender o que o grande escritor quis dizer, lembrando-se que a mulher naquela época, ainda estava condenada à submissão, sujeita aos desígnios masculinos. A sensibilidade de Flaubert, não se ajustava a esse modelo. Querendo contestá-lo, criou uma figura feminina, cujo comportamento romperia padrões.

Como Capitu, madame Bovary era exibicionista, astuta, ambiciosa, sensual e egoísta ao extremo. Ambas na busca de seus objetivos, para agredir os que as oprimiam, para fugirem da monotonia de suas vidas, não hesitaram em trair as pessoas que mais as amavam: seus maridos!
É interessante se observar a figura de Carlos Bovary, pois nela Flaubert projeta muito a sua personalidade. Como seu criador, Carlos sofreu nos bancos escolares, foi alvo do escárnio da turma que zombava de suas dificuldades.

Enquanto Bento Santiago, o Dom Casmurro, o marido de Capitu é o oposto de Machado de Assis, pois é belo e bem nascido! Parece que nessa figura, seu autor colocou tudo o que gostaria de ter sido.

O que se pode constatar lendo os dois romances, é que seus autores conheciam profundamente seus semelhantes, e nas citadas narrativas, mergulharam no recanto mais profundo de cada indivíduo, trazendo à tona, sem censura, tanto as qualidades que enobrecem a pessoa, como, as que a amesquinham. E dessa forma legaram duas obras geniais que, ainda hoje podem servir de espelho para a humanidade.

     
     
 

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