Morre? A Poesia? Nunca.
Para Carlos Drumond de Andrade. Isabel Sprenger Ribas
Morre a
poesia,
morre muito, mais e a cada dia,
morre uma morte morta e fria.
Morre mansa, sem estardalhaço,
sem alarde morre com cansaço e
sem a alegria da alegria.
Morre sem
banda, sem guizos,
sem fanfarra ou fantasia.
Finda, anônima e desprotegida.
Acaba leve, como se jamais fora sentida,
intuída, escrita ou apreciada.
Vezes outras,
morre a poesia, ainda em vida, doentio feto
que o desafeto da alheia insensibilidade
maltrata, desprestigia e aniquila.
Morre. A
poesia. Morre no menino de rua,
esbugalhado olho, perfeita a interrogação.
Morre, ainda, na aglomeração do trânsito.
E morre em quem por ele transita, senão souber transitar na vida.
Morre, nos canos dos revólveres, na busca dos falsos poderes.
Sufocada, morre a poesia, intoxicada
pela orgia de uns certos prazeres.
Morre, a poesia, nos amores sem poesia
e na despoesia dos desamores.
Morre, agoniada, quando percebe ser,
por tantos, assim,
tão mal, tão erroneamente dimensionada...
Morre, a
cada instante,
abominada pelo Homem sem tempo
e por este tempo sem homens.
Morre, a poesia,
cantando um lindo, lascivo canto de agonia
impar,
extremo chamamento,
movendo os tentáculos...
morre acenando,
em aparente findar...
Morre, se movendo, morre, tentando.. .
Morre?.. Não, a poesia não morre.
Emerge de qualquer tempo... Aqui. Ali. E em qualquer lugar...
Para
Carlos Drumond de Andrade - Direitos Assegurados