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    Júlia da Costa, através dos seus versos - II
por Ivan Justen Santana

Sabe-se pouco sobre a infância e a adolescência de Júlia da Costa (1844-1911). O historiador Manoel Viana escreve (em Paranaguá na História e na Tradição) que ela teria vivido em Paranaguá até os 24 anos de idade.

Já o crítico Augusto de Almeida, numa série de artigos sobre Júlia da Costa no jornal O Conservador, de Santa Catarina, em março de 1874, afirma a certa altura: “Na cidade do Desterro nasceu Júlia Maria da Costa.”

Desterro era então o nome da atual ilha de Florianópolis. Foi onde foram impressos e publicados os dois volumes das Flores Dispersas, em 1867 e 1868, reunindo os versos de juventude de Júlia da Costa.
Em 1882, o jornal Itiberê, de Paranaguá, publicou uma reunião de poemas de Júlia sob o título de Buquê de Violetas. E em 1913, numa homenagem póstuma, o Centro de Letras do Paraná publicou uma edição reunida das Flores Dispersas, acrescentando um terceiro volume, com poemas publicados em jornais e outros encontrados entre os papéis da poetisa.

Não há registro de quando a mãe de Júlia teria voltado à sua cidade natal, São Francisco do Sul, levando a filha consigo. Apurou-se que o pai morreu em fins de 1849. Podemos supor que a mãe teria ficado mais algum tempo em Paranaguá, mas não há nenhum registro a esse respeito.
No entanto, Júlia da Costa versou bastante sobre a saudade da terra natal, um tema que Gonçalves Dias colocou em moda no Romantismo brasileiro, ao começar seus Primeiros Cantos (de 1846) com a tão celebrada Canção do Exílio.

Outro poeta que também escreveu uma Canção do Exílio quando viajou para Portugal, e que muito influenciou a produção poética de Júlia, foi Casimiro de Abreu.
Selecionamos para este artigo apenas um poema de Júlia da Costa, e talvez o seu melhor – é um poema que fala, no tom ingênuo dos seus primeiros versos, do amor pela terra natal.
Não podemos errar muito se imaginarmos que esta terra é a cidade de Paranaguá, onde Júlia deixou familiares com quem pouco conviveu, e que devia representar para ela principalmente a saudade de seu falecido pai.

 
       
         
  ACORDES POÉTICOS

Não tenho segredos, é pura minh´alma,
Qual cândida aurora rasgando o seu véu!
Velando ou dormindo, chorando ou sorrindo,
Só amo – meus campos – meu solo – meu céu!

Cresci sobre um ermo tristonho e sombrio,
Soltei nas campinas meu primo cantar,
Saudei nas montanhas o sol que nascia,
Brinquei entre moitas ao claro luar!

Sou jovem, sou meiga, sorri-me o futuro
Nas fímbrias douradas de auroras de paz,
A flor das campinas só ama o infinito
Do céu, das venturas, não quer nada mais!

As flores dos prados não causam-me inveja,
Que hei flores mimosas no meu coração!
Lauréis e grandezas, eu não, não aspiro,
Não quero ter gozo tão falso, tão vão!

Não tenho segredos, é pura minh´alma,
Qual cândida aurora rasgando o seu véu!
Velando ou dormindo, chorando ou sorrindo,
Só amo – meus campos – meu solo – meu céu!

   
     
  FONTES BIBLIOGRÁFICAS:

Páginas escolhidas : literatura, vol I. – Curitiba : Assembléia Legislativa do Paraná, 2003.
PEREIRA, Carlos da Costa. Traços da vida da poetisa Júlia da Costa. Florianópolis : Fundação Catarinense de Cultura, 1982.
Poesia – Júlia da Costa. Organização e prefácio: Zahidé Lupinacci Muzart. Coleção Brasil Diferente. Curitiba : Imprensa Oficial do Paraná, 2001.

     

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