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  BARONESA DO SERRO AZUL – UMA MULHER DO SÉCULO XIX - EXEMPLO DE CORAGEM. SUA CARTA DIRIGIDA AO BARÃO DO LADÁRIO, TRANSCRITA A SEGUIR, FOI LIDA DURANTE A SESSÃO DE 02 DE JUNHO DO CORRENTE, NA ‘2ª NO CENTRO’.  
   

DOCUMENTO EXTRAIDO DO LIVRO ‘PARA A HISTÓRIA’ DE ROCHA POMBO. - CARTA ESCRITA EM 1895, PELA BARONESA DO SERRO AZUL, AO BARÃO DO LADÁRIO, LIDA PERANTE O SENADO.

Exmo. Sr. Barão do Ladário: Cumprimentando a V. Exa., espero que me será perdoada esta liberdade com que vou prestar a V. Exa. informações sobre o monstruoso atentado que trouxe em luto eterno o meu lar, para sempre deserto das alegrias que eram para o meu coração de esposa e para a inocência dos meus filhos, hoje órfãos de pai, o único e grato conforto na vida. Aqui, desta sombra de claus¬tro em que sinto minha alma sepultada, e onde a coragem que me resta nasce da própria imensidade do meu sofrimento, eu começo certa, senhor, que a justiça indefectível de Deus está escolhendo entre os puros e os bons deste mundo os instrumentos poderosos de que há de em breve valer-se para a solene separação que se lhe deve na terra. E V. Exa. foi dos primeiros entre esses que em todos os tempos e no meio de todas as nações como que a Providência designa para serem o seu verbo de fogo a falar às almas, a pungir os corações, emocionando os povos, apontando-lhes no céu a cor azul e imaculada da Lei, para que as magistraturas abalem-se e as consciências volvam a ouvir a voz clamorosa dos túmulos, onde o martírio não dormirá eternamente, porque eterna na terra só há de ser a divina soberania do Direito e da Verdade. E desde que V. Exa., justamente assombrado ante o que se passa neste País, está sendo um dos poucos (mas poucos que têm a força das legiões) que se em¬penham pela desafronta desta geração perante a História, julgo que é do meu dever, e dever piedoso e sano que me e imposto pela me¬mória saudosíssima de meu infeliz esposo, contribuir para que V. Exa. exerça neste momento a heróica e sagrada missão de clamar por desagravo completo à honra e à inocência das vítimas que aqui foram sacrificadas ao furor incontinente e aos desvarios dos homens que já têm a consciência galvanizada pelo mal.

Não repetirei o que por certo V. Exa. já sabe, em relação aos sucessos que desde princípios de 1894 se deram neste Estado; mas em poucas palavras recordarei quanto possa servir para dar uma idéia bem nítida do papel que coube a meu inditoso marido, o Barão do Serro Azul, no meio dos acontecimentos que se desdobraram. V. Exa. de certo já tem notícia das condições em que o então governador deste infeliz Paraná, Dr. Vicente Machado da Silva Lima, abandonara esta capital em janeiro de 94, deixando forças do governo lutando em diversos pontos e sem comunicar essa inesperada resolução sequer aos mais íntimos amigos seus que se achavam na cidade. Curitiba (a mísera Curitiba! - como justificadamente disseram folhas de S. Paulo) ficou inteiramente entregue aos azares do desconhecido; pois o governador, ao retirar-se, nem ao menos incumbira a Municipalidade da polícia urbana! Tribunais, repartições públicas, comércio, oficinas, e as famílias - absolutamente à mercê do primeiro salteio, enquanto a autoridade legal contradizia os seus protestos de véspera fugindo em desespero para o Estado vizinho. É fácil fazer uma idéia da situa¬ção em que se viram estas populações, sufocadas de pavor ante os estranhos sucessos que se passavam, e ainda sob as, impressões e suspeitas, que lhes haviam posto no coração transtornado, de que andá¬vamos em vésperas do saque, do extermínio, do arrasamento que pas¬sariam por sobre esta terra com as hostes da revolução.

Em semelhante conjuntura, as classes em que é mais natural e profundo o espírito de conservação recorreram ao único meio que pa¬recia eficaz no sentido de garantir ao menos os direitos primordiais das gentes: isto é, fizeram a escolha de uma comissão que tomasse a si o trabalho de neutralizar, como fosse possível, as violências a que se achava exposta a cidade. Foi assim que meu marido, com ou¬tros membros do comércio e das diversas classes, tomou a si o gran¬de e penoso encargo de colocar-se entre os revolucionários triunfantes e a família paranaense, cuja paz e cujos direitos o governo legal es¬tava impossibilitado de assegurar no momento. A população inteira de Curitiba, os próprios adversários ou desafetos do Barão do Serro Azul ainda podem dizer hoje como e com que sacrifício de sua saú¬de e de seus interesses ele tornou-se o centro e a alma da comis¬são, agregando tudo, contendo ímpetos, fazendo em suma quanto pudesse atenuar, para o comércio, para a indústria, para a proprieda¬de e para a família curitibana, os efeitos da emergência excepcional em que se via a cidade. Um só documento será capaz alguém de apresentar de que meu marido sequer tivesse simpatias pela revo¬lução. Em vez disso, seria facílimo fornecer provas positivas de que o Barão do Serro Azul, aos próprios chefes revolucionários, nunca dissimulou o seu modo de pensar a respeito do imenso descalabro que a invasão vinha causar ao Paraná e especialmente quanto à eficácia do extremo recurso da revolta como meio de corrigir os erros da tirania e operar o restabelecimento da Constituição e das leis - de modo horroroso subvertidas pelas paixões dos próprios homens que tinham o dever de conservar-lhes imaculada a pureza e majestade intangível. Foi tal, senhor - e o Paraná inteiro aí tereis para confir¬má-la -, foi tal a ação exercida por meu inditoso marido nos dias dolorosos em que Curitiba esteve pelo Governo entregue à revolu¬ção triunfante, que o comércio, a indústria, a imprensa, todas as clas¬ses sociais apontavam-no sempre como o elemento principal da gran¬de força que constituiu-se a égide do direito, da 'Ordem, da tranqüilidade de todos, tanto quanto era humanamente possível naqueles mo¬mentos anormais.

"E tão certo e convencido estava o Barão do Serro Azul de que os serviços que prestara pela última vez a esta terra, que tanto lhe mereceu e que por ninguém.. mais do que por ele, foi servida com de¬sinteresse e solicitude indiscutíveis, tão certo, digo, senhor, de que tais esforços seriam reconhecidos e louvados pelo Governo que re¬tomava o seu posto - que absolutamente recusou fazer o que os culpados fizeram. Com calma e até com satisfação e alacridade, espe¬rava, pode-se dizer sorrindo, o Governo legal, a quem desejava até dar contas do modo nobre como soubera zelar do direito, da fortuna e da honra de seus patrícios - honra, direito e fortuna que a autorida¬de legítima não tinha tido a coragem de amparar e defender.

Mas, logo nos primeiros dias após a chegada das tropas legais, entre cujas fileiras o governador que fugira entrava como um triun¬fador, meu marido percebeu que os sentimentos dos que voltavam desmentiam toda a convicção com que via restabelecer-se a Lei na terra paranaense, e isto não sem pasmo da população inteira, que su¬punha-se mais com direito à condolência pelo seu sofrimento, do que no risco de vir a padecer castigos por uma culpa que só o Governo cometera desertando o seu posto de guarda da Lei e garantidor da paz e da ordem. E que julga V. Exa. que fosse o pensamento de que vinha cheia a alma ,dos que haviam fugido?

Não quero alongar-me demais dando conta do que ocorreu, dos excessos de toda ordem que caracterizaram os angustiosos longos pri¬meiros dias da reocupação legal. Um dia, há de haver quem se in¬cumba de dar à América, para escarmento desta geração, uma pintura fiel e minuciosa desses incríveis sucessos, que encheram de mágoa e de santa revolta até a alma dos mais indiferentes, que fizeram es¬quecer de todos os males, os insignificantes males da revolução!

Para o que me preocupa, é bastante dizer a V. Exa. que entre o assombro que lhe produzia a descaroável e monstruosa conduta que se anunciava contra todos os que não tinham oposto à invasão a resis¬tência da fuga, e a mágoa que lhe calou fundo no coração sentindo ainda uma vez a sua virtude impotente para fazer emudecer a perver¬sidade, a inveja e a calúnia - meu marido cedeu a instâncias da fa¬mília reservando-se às violências que tinham já começado a ser pra¬ticadas contra a população, deve-se dizer, pois os quartéis, os teatros e até casas escolares desta Capital regurgitavam de presos, com toda expansão da ferocidade republicana, semelhante aos instintos daquele deus cujas iras aplacavam-se pela vingança e pelo sangue dos holo¬caustos. Dessa cautelosa reserva, no dia 10, meu marido saiu, como saíra Jesus das Oliveiras - entregue por um amigo dos muitos em que teve a infelicidade de crer. Já estava em nossa casa muito tran¬qüilo e confiante na mísera justiça dos homens, e até sem reprimir palavras de elogio ao general Everton Quadros (que o havia apenas pro formula detido sob palavra), quando o coronel Pires Ferreira, acom¬panhado de outros militares, procura meu marido para uma conferên¬cia, conferência esta na véspera anunciada, com todas as seguranças de cordialidade e boa-fé, por parte do comandante do Distrito. Como (talvez pressentindo que aqueles homens traziam para o meu lar a desgraça que aqui está bradando eternamente para o céu) não qui¬sesse eu acompanhar meu marido à sala, após uma prosa cordial e expansiva, tive de ver no recinto interno de minha família aquelas frontes cuja impressão ainda hoje me tortura. E então, meu esposo contou-me que o governador fa2Jia uma carga, imensa de responsabili¬dades contra ele e que por isso devia recolher-se ao quartel no dia seguinte. Sem conter o incômodo que todos deviam ter notado no meu semblante, perguntei logo se era com a prisão que se compen¬savam os serviços feitos por meu marido a Curitiba, ao que me res¬pondeu o coronel Pires Ferreira: 'Oh, minha senhora, pois V. Exa. esquece que sou o coronel Pires Ferreira, velho amigo do conselheiro Correia e portanto amigo de seu esposo! Senhora Baronesa, tran¬qüilize-se: o Barão não é preso, o Barão é meu hóspede!

No dia seguinte, meu marido recolheu-se a uma sala do quartel do corpo comandado pelo coronel Pires Ferreira. Ali deu-se a mais plena liberdade ao hóspede, com quem o comandante conviveu na mais perfeita e aparentemente mais cordial intimidade durante 6 dias. A sala em que meu marido foi aposentado tinha janela para a rua e a entrada era inteiramente franca a todos. À noite, o Barão, o coronel e outros oficiais jogavam quase sempre o solo.

Mas ouça V. Exa., ouça, senhor, e diga que não crê para honra da piedade humana: vive ainda o oficial do exército que, compungido, disse uma vez a pessoa de minha família que sentia horror ao ver aquele homem, que tinha conhecimento de tudo que estava para passar¬-se, e ali a encarar o Barão sem tremer e a tratá-lo de amigo!

Talvez V. Exa. não compreenda ou pelo menos não encontre ex¬plicação para as deferências especiais que se tinham com meu marido. Pois bem, agora V. Exa. fica sabendo que o plano era este: instigar no hóspede o desejo de fugir para ser trucidado sem responsabilidade criminal!

Decorridos 4 ou 5 dias, achando-me de visita a meu marido, ouvi do coronel: 'Já sabe, Sra. Baronesa, que conversei hoje longamente com o Barão. Estou ciente do quanto houve por aqui. Deixe tudo por minha conta'. E passado um instante acrescentou: 'E não há de ver, Sra. Baronesa, que o Barão é também religioso! Ironia pungente à fé puríssima e à conhecida religiosidade de meu esposo. E quando con¬firmei os sentimentos que se estranhava naquele dito, ouvi o coronel Pires Ferreira, ouvi sair dos lábios meio cerrados daquele homem si¬nistro e quase a meia-voz: 'pois que se console... porque Cristo também sofreu...' Tais palavras (e no tom em que foram ditas) arrepiaram-me; entretanto sempre eu entendia que a resignação acon¬selhada era para aquele sofrimento da prisão.

Nesse dia, e sem que a nova me magoasse mais do que era na¬tural (pois o coronel soubera habilmente preparar o meu espírito para ela) tive ciência de que o Barão se passaria para o quartel do 17.°, onde ficaria com outros presos. Efetivamente, no dia seguinte meu marido ia, de carro e com todas as atenções, para a sua nova prisão. Quando ele tomou o carro, o coronel, da janela, correspondeu amavelmente ao seu último aceno de mão, e logo que o veículo partiu - da alma do coronel Pires Ferreira saiu esta frase ouvida por alguns de seus ofi¬ciais: 'Este será liquidado dentro de dois dias... '.

O prognóstico realizou-se com a diferença apenas de um dia. O resto V. Exa. sabe, e eu procuro desviar da minha imaginação aquele trem-esquife que, às 10 horas da noite de 20 de maio de 94, partiu de Curitiba conduzindo o Barão do Serro Azul e seus companheiros de sacrifício.

No momento em que o comboio-tumba partia da estação, o coronel Pires Ferreira achava-se num dos clubes desta Capital e da sa¬cada do prédio houve quem lhe surpreendesse esta frase escapada daquela alma tremenda: 'Oh que inconveniência! Deixarem apitar um trem destes!...'

V. Exa. decerto há de ter tido notícia do modo como se consu¬mou aquela monstruosidade que maculou para sempre a civilização deste país e que não encontra símile na história da humanidade. E não fora a minha fé, senhor, a minha fortaleza moral e a resignação que sinto lembrando-me de Jesus, como se compreenderia que me ficasse ainda, depois de todas estas angústias, este resto de vida e de cora¬gem para resistir à loucura no meio da minha desgraça!

Só alguns dias passados, o boato começou a correr pela cidade; e às esposas aflitas que procuravam o comandante militar para ouvir o desmentido da nova inverossímil, afirmava o general Everton Qua¬dros, com sorrisos nos lábios e com mostras de sinceridade através das quais era impossível perceber um resquício de remorso, afirmava sob sua palavra de honra que os presos haviam seguido para o Rio. . E quando a alma da população inteira foi se enchendo de opressão hor¬rível ante as versões que corriam como um clamor de dies irae, dei¬xando por sobre a Capital do Paraná a sombra pavorosa da agonia e do luto - o general, cuja espada viera restaurar a Lei, mandava que as bandas militares, com o som da música festiva, dispersassem os agouros que suspendiam a vida de um povo, como quem a gritos es¬tridentes espanta uma corvada que fareja matanças! Ao mesmo tempo, senhor, fazia-se declarar às famílias das vítimas que não podiam cerrar as portas nem dar outras demonstrações de luto... sim - visto como era falso o que se falava. . .

Quando, mais tarde, meu procurador pediu na repartição do co¬mando do Distrito a certidão de óbito, esta foi forneci da nestes ter¬mos: '0 Barão do Serro Azul foi fuzilado na serra por ter-se revoltado contra a escolta que o conduzia para o Rio'.

O governador deste Estado naquele tempo, V. Exa. sabe também, é hoje senador da república, e com o coronel Pires Ferreira, aí está clamando por que, antes de tudo, se aprovem os atos do marechal Floriano e necessariamente todas as monstruosidades cometidas em nome do vice-presidente da República. Até agora, portanto, os dois homens (homens, senhor!) que fizeram no Itararé o conhecido pacto negro, mantêm-se fiéis ao seu juramento de covardia e de sangue: estão ambos no Senado da Pátria, naturalmente bendizendo a mísera que, como Prometeu aos seus abutres, os alimenta de posição e talvez de fortuna, com o próprio sangue e com a desgraça de seus filhos.

É possível, senhor, que se quisesse contestar esta narração; e V. Exa. compreende que almas assim avassaladas do crime e entre¬gues às convulsões da sua fereza devem ter ainda a serenidade da hiena para o desplante de limpar das fauces o sangue das vítimas.

É também verdade que poderiam aludir à minha suspeição de mu¬lher e de viúva, obumbrada pela fatalidade que me feriu. Mas, senhor, o que aí fica - peço a V. Exa. que não esqueça agora - nasce d'alma de uma criatura que tem os olhos voltados para a misericórdia de Deus e que não clama senão pela Justiça, para que o martírio das vítimas não fique pesando sobre os destinos deste pais, em que tenho de deixar os meus tristes filhos. Curitiba, 8 de julho de 1895. - Maria José Correia - Baronesa do Serro Azul.

foto da Baronesa do Serro Azul

   
 

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